Fiquei tetraplégico. Suicido-me?

Minha coluna este mês no Portal Vida Mais Livre:

Alguns meses após o acidente que me deixou tetraplégico, encontrei um antigo conhecido da minha idade, que não via há muito tempo.

Ele ficou muito confuso e surpreso por me ver numa cadeira de rodas, e naquela situação, e quis saber se era grave. Disse-lhe que era para sempre, irreversível. Disparou imediatamente: “não pode ser! E tu aguentas? Eu já me tinha matado”. Naquele momento não pensei muito no assunto e acho que nem lhe respondi concretamente, até porque no início, achava que poderia a qualquer momento ter melhoras significativas e também não queria ver a real gravidade do meu problema.

Mas de há uns anos para cá penso nesta frase e tento enquadrá-la. Acho que muitas pessoas quando nos vêem, a pensam, só não a dizem. Questionam-se se seriam capazes de viver este tipo de vida.

Hoje, vejo que passaram 19 anos e eu sem as ditas melhoras significativas. Pelo contrário, com o tempo, aparecem é as pioras.

É fácil viver dependente dos outros? De maneira nenhuma! Acostumei-me? Não, nunca me acostumarei! Aceitei? Nem pensar! Vou vivendo uma mentira e faço de conta que sou feliz? Nada disso. Eu sou infeliz. Já ouvi da boca de dois conhecidos tetraplégicos portugueses, que são mais felizes após o acidente. Eles lá saberão porquê. Talvez se fosse rico como eles, vos pudesse dar uma resposta…eu não o sou.

Então porque vivo nestas circunstâncias, e não me suicido, como meu conhecido teria feito? Porque não sei como, mas encontrei uma maneira de ter momentos felizes, viver com o que tenho e sou, e não fazer dramas. Também tive a confirmação, que nós, seres humanos, somos mais fortes que imaginamos, e somos capazes de ultrapassar coisas que até nós duvidamos.

Nunca mais vi esse meu conhecido, mas se ele me aparecesse com as mesmas dúvidas, continuaria igualmente a não lhe saber, ou querer responder.

Comentários

  1. Sei perfeitamente o que sente... ao escrever este comentário...Já me fiz em tempos essa pergunta...
    Mas meu Caro Eduardo... a resposta pode tardar... mas chega sempre...
    Pode não movimentar os seus membros, pode estar dependente de outrem... mas no seu peito bate um coração.... um coração que diz à mente... Vá Eduardo, "bate-te" por aqueles que não têm voz... reclama justiça, reclama a aplicação de direitos e igualdades para aqueles que não tendo conhecimentos ou capacidades, não o fazem...
    Tem o seu sorriso lindo, que aquece o coração daquele idoso, que se cruza consigo na rua... e que vive na maior solidão e que quem sabe até gostaria de partilhar consigo o amor, a ternura, as recordações de uma vida já vivida e que não tem ninguém "disponível" para o ouvir...

    E aquela criança,sentada na passeio e que olha o fundo da rua a ver quando a mãe chega do trabalho?e que gostaria de ter alguém que lhe desse um sorriso,que lhe contasse uma história...que lhe dissesse "És muito importante para mim..."

    Todos temos uma missão a cumprir, mesmo limitados no nosso corpo...

    Há sempre alguém que precisa de nós ... de uma maneira ou outra... não podemos cruzar os braços à espera que nos venham suplicar a nossa ajuda!!! Temos que ser nós, de coração aberto,de par em par, que temos que ir ao encontro do OUTRO!!!

    Só assim a VIDA terá sentido, meu Caro EDU!!!
    Não se esqueça... Há muita gente que precisa de SI!da sua disponibilidade,da sua informação, dos seus conhecimentos,da sua simpatia, da sua escuta,do seu sorriso...que de uma maneira ou outra... pode depender de SI!!!

    Eu acho é que o Eduardo devia procurar uma Instituição, em que participasse em certas actividades adaptadas à sua situação...

    Sabe que sou vizinha do nosso Campeão Europeu (?) de "Bóccia"... sim do João Paulo Fernandes?e que além do desporto está a preparar uma licenciatura???(paralisia cerebral)

    Pense nisso EDU!!!Um abraço!!!

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  2. Tem toda a razão, Maria Helena! Todos somos válidos e temos uma missão a cumprir.
    A minha tento cumpri-la da melhor maneira e sem azedumes.
    João Paulo, grande Homem! Todos o admiramos muito.
    Obrigado pelo carinho e lindas mensagens que me tem dirigido.
    Fique bem.

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  3. Eduardo,

    Penso que ninguém é feliz a tempo inteiro... todos temos os nossos momentos de felicidade, e os nossos momentos de angústia, uns mais acompanhados que outros... Agora o que nos faz dignos de viver a vida é o carâcter de gente forte que se agarra às pequenas coisas importantes... aquelas que por vezes na azáfama de vida passam indiferentes, ter uma palavra de afecto, uma pequena acção no momento certo... é também aquilo que tu mesmo me disseste há umas semanas... é contemplar a natureza, os seus silêncios, e os seus ruídos... até sentir a cabeça vazia e não pensar nada, como se entrassemos numa outra dimensão... E depois o sonho, esse nunca deve morrer...
    Tu és a confirmação de que a vida de tetraplégico pode ser uma experiência de superação, de demonstração de coragem, dignidade e amor ao próximo... és esse exemplo!!
    Abraço.
    Sininho

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  4. Sempre sensata, doce, precisa e amiga. Tens toda a razão.
    Quero deixar claro que por não ser feliz, não quer dizer que não viva a vida da melhor maneira e não tenha meus momentos felizes.
    Fica bem e bfs.

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  5. Eduardo emocionaste-me com o teu relato; o que dizes é verdadeiro,faz sentido...a dúvida que o teu conhecido colocou é pertinente e com certeza existirá em muitas cabeças mas tu és a resposta a todas as dúvidas que possam existir; és um lutador e não um resignado tens momentos como todos nós e assumes as tuas fraquezas e depois Eduardo(tu sabes)o quanto és útil a todos nós que vemos o teu blogue e te acompanhamos no Facebook...tu sabes o quanto és especial para mim, era me difícil não sentir a tua presença e não poder partilhar contigo momentos e ideias.
    Obrigada por seres o Ser Humano maravilhoso que és e seres meu amigo.Beijinho grande.

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  6. É Ana, fácil não é para ninguém. Há momentos que penso em desistir, mas há outros em que tudo vale a pena...ler estes lindos e comoventes comentários é um desses momentos.
    Também gosto muito de ti.
    Fica bem e bfs.

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  7. Seu texto e os comentários são comoventes!

    Uma das razões para dizer que a vida é maravilhosa, é ser uma pessoa querida. E você, Eduardo, é muito querido!! Você sabe disso...

    Estes tipos de frases, como a do seu antigo conhecido, que por sinal foi muito infeliz quando disse isso, é para ser deletada da memória. Não vale a pena refletir...

    Sua valentia, sinceridade, humanidade e sabedoria transcende qualquer dificuldade que possa ter. Estas qualidades não é para qualquer um, mas somente para um guerreiro. E não há dinheiro no mundo que possa comprar qualidades como estas.
    Quando vejo você incentivando e encorajando outras pessoas, percebo a paixão que tem pela vida e o quanto isso o deixa feliz.

    Viver é algo fantástico, não é?! Como dizia Oscar Wilde: "Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe."

    Abraços e fique bem!

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  8. Vera, eu não gosto de viver como sou. Isso deixo bem claro. Mas não é por isso que fico quieto num canto à espera que o tempo passe. Tento dar sentido à minha vida e viver da melhor maneira possível.
    E um desses motivos que me atenua a parte negativa, são vocês e o estar sempre a tentar ser útil realmente.
    Fica bem e obrigado pelos elogios.

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  9. Eduardo,
    pesquisando sobre tetraplégicos na Internet encontrei seu depoimento.

    Minha sobrinha de 21 anos sofreu um acidente no dia 05 de setembro de 2010 e está tetraplégica.

    Está hospitalizada, respirando por traqueostomia e indo e vindo para o CTI. Passa alguns dias no quarto e outros no CTI.

    Está tudo muito pesado e fico buscando referencias para passar por este momento tão delicado.

    Não se se você tem alguma fé, mas li em algum lugar que é preciso lembrar que "Não somos este corpo, apenas estamos neste corpo".

    É este tipo de pensamento que tem me dado forças. Pensar que minha sobrinha tão linda, jovem, boa está passando por algo que vai deixá-la mais evoluída.

    Obrigada pela sua mensagem.
    Beatriz (beatrizcampos2004@yahoo.com.br)

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  10. Beatriz, sinto muito pela sua sobrinha e desejo-lhe uma boa recuperação.
    Importante agora é todos unirem-se em sua volta e mostrarem-lhe que pode contar convosco.
    Obrigado pelo carinho.
    Fique bem.

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